Festival Pérola Negra transforma Itabuna em território de música, impacto social e pertencimento

À noite, o público prestigiou o espetáculo “Ize Duque e as Encruzilhadas”, entre outras atrações.

Sob o céu ensolarado de sábado, 16 de maio, a Concha do Centro de Cultura Adonias Filho, em Itabuna, se transformou em um território vivo de música, reencontros e celebração da cultura do Sul da Bahia. Assim foi a primeira edição do Festival Pérola Negra: Valorização da Diversidade Cultural no Sul da Bahia – evento que reuniu cerca de 450 pessoas entre grupos de amigos, famílias, artistas, produtores culturais e amantes da música em uma experiência marcada pela diversidade, pela ancestralidade e pelo sentimento de pertencimento.

Desde cedo, o clima era de leveza e alegria. Gente chegando devagar, ocupando os espaços, circulando entre os expositores, abraçando amigos antigos e descobrindo novas sonoridades. Mais do que um festival musical, o Pérola Negra nasceu para valorizar artistas muitas vezes invisibilizados dentro do próprio território — e conseguiu criar um ambiente onde o público se reconheceu parte daquela experiência.

O instrutor Jefferson Rego foi um dos que decidiram viver esse momento em família. Ao lado da esposa e do filho Bernardo, de 8 anos, ele falou sobre a importância do evento para a cidade: “Estou aqui dando um incentivo, porque a nossa região precisa disso. Esse evento é muito importante pra nossa cidade. Trouxe meu filho pra que ele cresça sabendo da cultura não só da cidade, mas da região.”

A estrutura também chamou atenção pela organização e segurança, com detector de metais na entrada, segurança privada e apoio de bombeiros civis, permitindo que o público aproveitasse o festival com tranquilidade do início da tarde até a noite. E foi nesse clima leve e acolhedor que a música começou a tomar conta da Concha do Centro de Cultura. A abertura ficou por conta da DJ Nahraujo, que conduziu uma discotecagem construída a partir de referências afro-diaspóricas e da música negra mundial. Entre sons de bloco afro, música eletrônica, samba e artistas como Naná Vasconcelos, o público foi sendo recebido em uma atmosfera sonora que já antecipava a proposta do festival: ancestralidade, identidade e diversidade cultural.

Entre o público, a estudante Samanta acompanhava atentamente a programação ao lado do amigo Lucas. Os dois foram motivados em aproveitar um evento cultural diferente na cidade. “Estou aqui justamente pra conhecer os artistas da região e apreciar a música”, contou Lucas. Ao longo do dia, o palco do Festival Pérola Negra recebeu diferentes artistas e sonoridades do Sul da Bahia, misturando reggae roots, blues, rock, MPB e influências afro-brasileiras. A Javali’s Blues Band, de Ilhéus, foi a segunda atração a subir ao palco e chamou atenção pela presença marcante do blues elétrico, estilo ainda pouco comum nos eventos da cidade.

Enquanto a música ocupava o palco, a economia criativa também encontrava espaço no festival. O público encontrou barracas de artesanato, moda africana, acessórios, produtos culturais, além da gastronomia regional. O festival também gerou oportunidade de renda para empreendedores culturais da região, que puderam divulgar seus trabalhos, fortalecer suas marcas e comercializar seus produtos durante o evento, a exemplo da cervejaria artesanal 3 Barcaças. Também participaram da feira iniciativas como o Ponto de Cultura Mulheres da Vila e a FAEG Sul, fortalecendo o encontro entre arte e empreendedorismo. Para Simone Gualberto, coordenadora do Ponto de Cultura Mulheres da Vila, o evento representou mais do que uma oportunidade de vendas: “Esse evento pra nós é mais uma oportunidade de apresentar pra comunidade de Itabuna o nosso trabalho. Nós somos 75 artesãs unidas com o propósito de propagar cultura.”

Entre os momentos mais simbólicos da tarde, a apresentação da banda Bilão e os Burundangas emocionou o público. Da Vila de Camboinha, em Itacaré, os músicos levaram ao palco uma mistura de reggae, MPB e ritmos regionais carregados de simplicidade, alegria e identidade popular. O vocalista Bilão, trabalhador da roça e compositor, se apresentou pela primeira vez em um palco oficial em Itabuna — um dos exemplos do objetivo central do festival: abrir espaço para artistas talentosos que muitas vezes permanecem fora dos grandes circuitos culturais.

O Festival Pérola Negra também mostrou que cultura pode ser ferramenta de inclusão e democratização do acesso. Durante toda a programação, o evento contou com 4 intérpretes de Língua Brasileira de Sinais - Libras, da empresa InLibras, que se revezavam no palco, garantindo mais inclusão e acesso para pessoas surdas acompanharem os shows e as apresentações com autonomia. A consultora surda Karine Figueiredo destacou a importância dessa iniciativa: “A gente percebe que aqui no município existem vários eventos culturais, mas sem acessibilidade. Hoje tivemos essa experiência de democratização do acesso e isso foi muito importante”, comentou Karine com a ajuda da intérprete Roberta Brandão.

Mais do que entretenimento, o Pérola Negra também promoveu impacto social. A entrada solidária arrecadou pouco mais de 350 quilos de alimentos não perecíveis, entregues à Fundação Dr. Baldoíno Lopes de Azevedo logo após o festival, transformando cultura em rede de apoio e cuidado coletivo.

Já no início da noite, a cantora Ize Duque, de Itabuna, subiu ao palco e protagonizou um dos momentos mais marcantes do festival. Com um show autoral carregado de potência feminina, presença cênica e simbolismo, ela apresentou o espetáculo “Ize Duque e as Encruzilhadas”, acompanhado por uma banda formada exclusivamente por mulheres. Durante a apresentação, a filha da artista, Naomi, de 7 anos, roubou a atenção do público ao dançar no palco ao lado da mãe, em uma cena que sintetizou afeto, força e representatividade. Após mais de um ano sem se apresentar com banda completa, Ize definiu o momento como uma “virada de chave”: “Esse show reafirma que nós mulheres podemos ocupar qualquer espaço. É um show sobre coragem, sobre transformação e sobre usar nossa força de maneira criativa.” Finaliza.

À medida que a noite ia se prolongando, o público continuava ocupando a Concha para viver a atmosfera do reggae que marcou a reta final do festival. A banda ilheense Quizila trouxe ao palco décadas de história da cena alternativa sul-baiana, misturando reggae, cotidiano popular e cultura urbana em um show cheio de identidade. Na sequência, a Big Roots Band manteve a vibração positiva da noite com um repertório que passeou entre o reggae raiz e influências do rock clássico, reforçando o clima leve, coletivo e cheio de energia que tomou conta do espaço. Apesar da formação recente, a banda nasceu da amizade entre músicos de Itabuna e Itacaré apaixonados por música e mostrou sintonia no palco. O encerramento ficou por conta da banda itabunense Jahmaica Roots, que transformou a Concha em uma verdadeira celebração reggae. Em sintonia com o mês em que é celebrado o Dia Nacional do Reggae, comemorado em 11 de maio, a banda que tem mais de 30 anos de estrada, levou mensagens de consciência, resistência e paz ao público, que cantou, dançou e vibrou até o fim da apresentação.

Antes do último show da noite, o festival também prestou homenagem ao multiartista José Carlos Ngão, falecido no último dia 4 de maio. Ator, diretor teatral, produtor cultural e ativista das artes, Ngão dedicou sua trajetória ao fortalecimento da cultura no Sul da Bahia, deixando um legado profundamente respeitado por artistas e movimentos culturais da região.

Para a equipe organizadora, a primeira edição do Festival Pérola Negra superou as expectativas e consolidou o potencial do projeto como movimento cultural do território. O coordenador geral do evento, Cláudio Lyrio, comemorou o resultado alcançado: “Esse festival nasceu de um sonho coletivo. Ver o público ocupando esse espaço, os artistas sendo valorizados e toda a equipe trabalhando em sintonia pra fazer isso acontecer, foi emocionante. Conseguimos alcançar nossa meta e mostrar que o Sul da Bahia tem potência cultural. Preparem-se para a segunda edição do festival Pérola Negra!”, finalizou Cláudio

Ao final da noite, ficou a sensação de que o Festival Pérola Negra não foi apenas um evento musical. Foi um movimento de valorização cultural capaz de transformar a Concha do Centro de Cultura em um espaço de encontros, memória, resistência, inclusão e pertencimento.                   

DJ Nahraujo abriu o Festival com uma discotecagem a partir de referências afro-diaspóricas

Jeferson curtiu o festival em família

A banda Bilão e os Burundangas se apresentou pela 1ª vez em um palco de Itabuna

O festival gerou oportunidade de renda para empreendedores culturais da região

Cerca de 450 pessoas curtiram o Festival Pérola Negra

Seguranças privados utilizaram detector de metais na entrada do evento para garantir tranquilidade

Nenhuma ocorrência foi registrada pelos bombeiros civis

Por Ascom – Festival Pérola Negra 2026

Jornalista responsável: Karen Póvoas